domingo

Como fazer um diário terapêutico pra valer



Não imagina o que uma caneta e papel – um diário – podem fazer por você.

O diário é um “recurso” muito antigo que infelizmente caiu em desuso, sabe-se lá porque, já que os nossos problemas e mazelas pessoais, existenciais, afetivas e emocionais, não arrefeceram, pelo contrario, ao que parece, radicalizaram, logo, o diário nunca foi tão necessário e oportuno como hoje.
Entretanto, quem já fez diário – como eu, ainda faço – tem histórias para contar sobre invasão de privacidade, ou seja, que um abelhudo (a) andou bisbilhotando sua intimidade. Portanto, o ideal é que procure um lugar isolado – seu quarto – para escrever, para não suscitar curiosidade e procure um local bem secreto para guardá-lo. Um diário não é algo que seja compartilhado, em hipótese alguma. Outra dica é não levá-lo na bolsa por aí, para a rua, escola etc., e ninguém precisa ficar sabendo.
           "Ninguém entende você. E, mesmo que entendesse, isso não vem ao caso. Por vergonha ou medo seus segredos vão continuar seus, guardados na memória e, no máximo, divididos com o travesseiro. Quem tem dificuldades para falar sobre os sentimentos e não se sente pronto para fazer uma terapia, muitas vezes, acaba sofrendo sozinho. Mas não deveria, porque existe um recurso barato e muito eficaz para trabalhar as emoções: escrever um diário.

"Um diário pode levar à reflexão e revelar como nossos humores oscilam. Assim, aprendemos a identificar nossas emoções e melhorar nossas respostas aos estímulos do dia-a-dia”, afirma o psicólogo Edson Laino, de Botucatu.

Quando confidencia seus desejos e suas frustrações ao papel, você entra em contato direto com suas sensações mais importantes naquele momento. Fazendo isso, encontrar uma saída para um problema ou arrumar um jeito de superar uma perda, por exemplo, acaba sendo mais fácil.


Os poderes terapêuticos da palavra, aliás, são reconhecidos pelos especialistas e usados com grande habilidade nos consultórios. Eu uso muito a escrita com meus clientes, afirma a terapeuta Marina da Costa Vanconcellos, especializada em psicodrama.

No encerramento de uma sessão chego a pedir que eles façam listas, indicando características que gostariam de conquistar e aquelas que pretendem perder. Também peço que se imaginem com 50 ou 70 anos e escrevam uma carta para si mesmos, na idade atual. É uma maneira de fazê-los entrarem contato com ideias muito profundas, conta a especialista, que acaba de lançar o delicioso Quando a psicoterapia trava (Editora Ágora; 216 páginas). O livro reúne doze artigos de profissionais da área, discutindo os motivos que bloqueiam o andamento das sessões e apontando caminhos para solucionar os intermináveis silêncios.

Desabafo sem constrangimento.


Os desabafos, na opinião da autora, são úteis na organização dos pensamentos e ajudam a tomar decisões mais conscientes, principalmente quando o furacão emocional parece não permitir que as ideias assentem. A culpa some, os sentimentos fluem e, enfim, conseguimos perceber qual a melhor atitude a tomar. Podemos até decidir ignorar essa descoberta, caso ela provoque muita dor, mas ela está ali, completamente exposta, diz. Mas não se engane. Não é de um minuto para o outro que o quebra-cabeças começa a fazer sentido. O treino é fundamental e, diferente de muitas atividades, exige total descontrole. Isso mesmo! As palavras têm de sair direto do coração, sem nenhum tipo de censura. Só assim a autenticidade é preservada, orienta Edson. A reflexão deve ocorrer depois, dando continuidade ao processo de evolução emocional. Essa liberdade diante da folha em branco costuma ser o maior atrativo para quem precisa escapar das pressões e investir no autoconhecimento.

Não é por acaso que as meninas começam cada descrição saudando o Querido diário, ele realmente se transforma num companheiro, que acolhe sem fazer críticas, indica a psicóloga. E não pense que os benefícios param por aí. Enquanto escreve, você desabafa. Mas, quando relê, você tem oportunidades únicas para promover o seu crescimento interior, salienta o especialista de Botucatu.

Segundo ele, retomar experiências vividas há um tempo permite observá-las de uma maneira diferente e, claro, observar como mudou sua reação a situações parecidas. Não mudou? Ponto para o diário novamente. Se o desespero de hoje é idêntico ao de ontem, é hora de dedicar um tempinho para entender por que isso acontece e aprender a lidar com ele (sozinho ou com ajuda profissional).

No papel é mais seguro.

Para quem gosta de escrever, mas prefere montar um blog (em vez de riscar um caderno com as confissões), um alerta. Abrir nossa vida publicamente é sempre um risco, não sabemos como nossos medos e nossas angústias serão recebidos. Num momento de fragilidade, algumas críticas são devastadoras, diz Edson. Opinião endossada pela psicóloga Maura de Albanesi, de São Paulo. Como o blog é público, sujeita nossas confissões ao crivo do outro assim que elas vão ao ar. E ouvir a opinião alheia sem ter a nossa formada pode influenciar o próprio juízo, dificultando a reflexão, considera a especialista.

No papel, as emoções são percebidas mais claramente, até a letra varia de acordo com o momento. Abrir o coração sem medo de magoar ninguém ou de passar vergonha é a grande chave que explica o sucesso dos diários. Ao escrever, a pessoa se liberta do que está incomodando e tem condições de viver melhor suas relações, diz Maura. Então, que tal deixar o mouse de lado um instantinho e recuperar aquele caderno largado ali no fundo da gaveta? Você as pessoas que você ama só têm a ganhar com isso.

Publicado em minhavida

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